Um website feito só com IA: parece pronto, mas não está

Temos recebido cada vez mais websites que os próprios clientes criaram do início ao fim com inteligência artificial, desde o design até aos textos legais. Em parte até conseguimos perceber porquê. Hoje é possível ter um site no ar numa tarde, quase sem custos e com um aspeto que, à primeira vista, parece profissional. Nós também usamos IA todos os dias na Multisnet e não temos qualquer intenção de deixar de usar.

Até aqui, quando olhávamos para estes sites, os reparos que fazíamos eram quase sempre de design, porque se pareciam todos uns com os outros, e de SEO. Já escrevemos sobre isso a propósito do copywriting e, honestamente, achávamos que o tema estava mais ou menos arrumado. São problemas que custam visibilidade e clientes, mas que raramente passam disso.

Esta semana apareceu-nos um caso que nos fez olhar para o assunto de outra forma, porque desta vez o problema estava nos textos legais.

A política de privacidade que dava instruções a si própria

Um cliente nosso tinha criado e publicado sozinho o website do seu novo negócio. À primeira vista estava tudo lá, incluindo uma política de privacidade com dezasseis secções e referências ao RGPD e à CNPD. Foi ao lê-la com mais atenção que percebemos que o que estava publicado era, na verdade, um rascunho.

Ilustração: um website com o design típico gerado por IA e, ao lado, a política de privacidade com frases como "deverá apresentar" e "devem ser confirmados antes da publicação" assinaladas, prestes a ser publicada.

Quando se pede a uma ferramenta de IA que escreva uma política de privacidade, ela costuma deixar avisos sobre o que ainda falta confirmar. O problema é que os escreve no mesmo tom do resto do documento e, se ninguém os apanhar, acabam publicados como se fossem texto final. Neste caso encontrámos vários, que resumimos aqui por palavras nossas:

  • A política dizia que os prestadores de serviços, como o alojamento, os pagamentos e as reservas, tinham de ser identificados antes da publicação. Estava publicada e nenhum estava identificado.
  • Dizia também que o website devia ter um painel para aceitar ou rejeitar cookies, painel esse que não existia.

O ponto mais delicado era o das câmaras. A empresa queria tê-las nas salas e a política explicava que, antes de as ativar, era preciso confirmar se a lei o permitia. Na prática, um documento público, que qualquer cliente ou a própria CNPD pode ler, onde a empresa admite que ainda não sabe se aquilo que quer fazer é legal.

Nos termos e condições acontecia o mesmo. Num dos pontos lia-se que a política de privacidade devia ser disponibilizada através de uma ligação visível no website, quando essa ligação já existia e a política já estava publicada.

O que mais nos preocupou foi perceber que, para quem não está habituado a ler estes documentos, o texto parece impecável. Está bem organizado e cita a legislação certa, por isso é natural que ninguém tenha desconfiado.

A ferramenta até avisou o que faltava fazer. Só que esses avisos ficaram no meio do texto e foram publicados com ele.

Páginas que não dizem o mesmo

Depois da política de privacidade fomos ver o resto do site e encontrámos outro padrão. Cada página parecia ter sido gerada numa conversa diferente e ninguém tinha lido o conjunto de seguida:

  • A página inicial dizia que o espaço ainda estava a chegar, mas logo abaixo convidava a fazer uma reserva.
  • Os termos diziam que se podia reservar pelo website, enquanto a página de reservas explicava que, por agora, só através dos contactos.
  • Nas perguntas frequentes, os menores de 14 anos tinham de vir acompanhados por um adulto. Nos termos, a regra aplicava-se até aos 14 anos inclusive, por isso a resposta para um miúdo de 14 anos dependia da página que os pais tivessem lido.
  • Havia textos em português de Portugal, outros com expressões do Brasil e algumas frases em inglês.

Nenhuma destas falhas é grave por si só, mas juntas dão a ideia de um negócio que ainda não sabe bem como funciona. No caso das idades, é o tipo de coisa que acaba numa discussão ao balcão.

O design que já vimos mil vezes

Depois há o problema que já conhecíamos e que, sinceramente, nos incomoda há bastante tempo. Os sites gerados por IA estão a ficar tão parecidos que muitas vezes conseguimos reconhecê-los nos primeiros segundos. A estrutura repete-se quase sempre:

  1. Um topo escuro com brilho ou gradiente e um título enorme ao centro.
  2. Dois botões lado a lado, um cheio e outro só com contorno.
  3. Uma etiqueta pequena em maiúsculas por cima de cada título.
  4. Uma grelha de cartões, cada um com um ícone de linha.
  5. Uma secção "Como funciona" com passos numerados.
  6. A fechar, um "Pronto para começar?".

Muda a cor e o logótipo, mas a estrutura é a mesma, seja uma clínica dentária ou um ginásio. Parece-nos que isto acontece porque a IA tende a devolver a resposta mais provável, que acaba por ser uma média de tudo o que já viu. Para um texto técnico isso pode até ser útil, mas a identidade de uma marca precisa precisamente do contrário.

Neste site havia ainda um pormenor curioso, um seletor com onze temas de cores, incluindo um de Halloween e outro de Natal. Ninguém o tinha pedido e, entretanto, o painel de cookies e o sistema de reservas continuavam por fazer.

E o que não se vê? Nenhuma página deste site tinha uma descrição para os motores de pesquisa e, na página inicial, os nomes das atividades estavam apenas dentro de imagens, sem texto alternativo. Para o Google, e para quem navega com um leitor de ecrã, a página não explicava o que se pode fazer naquele espaço.

Isto quer dizer que não se deve usar IA?

De todo. Nós usamos e vamos continuar a usar, mas há sempre alguém que conhece o projeto a rever o resultado antes de ele chegar ao cliente. Para quem já criou o seu site com IA, deixamos algumas verificações que teriam apanhado quase tudo o que encontrámos neste caso:

  • Procure nos textos legais palavras como "deverá", "deve ser confirmado" ou "pretende"Uma política de privacidade final descreve o que a empresa faz hoje. Se encontrar estas expressões, é provável que esteja perante um rascunho.
  • Confirme que existe tudo o que os textos prometemSe a política fala de um painel de cookies, ele tem de estar no site.
  • Leia o site inteiro de seguidaHorários, idades, preços e condições de cancelamento têm de ser iguais em todas as páginas.
  • Peça a alguém de fora que descreva o seu negócio depois de ver a página inicialSe a descrição servir para qualquer concorrente, o design não está a ajudar.
  • Valide os textos legais com um juristaA IA ajuda a estruturar o documento, mas não conhece a operação da empresa nem responde pelo que lá está escrito.

O que retiramos deste caso

Este caso mostra bem como uma ferramenta usada com boa intenção pode criar um problema sério quando ninguém revê o resultado. A IA deixou escrito o que faltava fazer, em português claro, mas do lado de lá não estava ninguém que soubesse o que procurar antes de carregar em "publicar".

Continuamos a achar que a IA tem lugar num projeto web e, no nosso trabalho, tem cada vez mais.

Um website é a cara de um negócio e, nos textos legais, é também um compromisso perante os clientes e a lei. Por isso, antes de ir para o ar, deve passar sempre pelas mãos de quem percebe do assunto.

Quero uma segunda opinião sobre o meu site

Outros Artigos
Voltar
Ligue-nos Envie-nos um email